terça-feira, 2 de julho de 2013

Do amor que vale o silêncio


Quão mais platônicos,
são frente a frente,
os amantes,
mudos.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Todos os grilos no meu quarto

Vento, frio, chuva, arco-íris
todos os grilos no meu quarto
bem menos que no show do Mccartney

Verde, suco, besouro, abacate
fields de strawberries para quebrar o cerrado
guacamole no chilli avermelhado

Um buquê de flores de papel machê
de um romântico flamboyant
que a vizinha agora varre da minha calçada

terça-feira, 4 de junho de 2013

meu corvo
(que eu espero apareça para mim)
só não grasne
Nunca mais!
pois nunca mais
é de mais pra mim

sábado, 13 de abril de 2013

Se a linha do horizonte é turva

O que é céu?
O que é mar?

O que é grama?
O que é céu?

O que é água?
O que é ar?
 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Raso

É tudo muito raso. Vivo em um ambiente onde tudo é muito raso. Penso no mar.  Se o mar no raso é seguro, distancio da areia. O intuito é me sentir pequena qual o mal não vejo. Saio de onde é tudo muito raso. No raso estão todas as afirmações da sua vida. Venha me dizer o contrário, irei ouvi-lo, porque quero ficar longe de onde tudo é muito raso. Penso no mar novamente. Discuto com ele. A discussão é essa, mais me separo do conforto das minhas afirmações, menor me transformo. Eu digo que posso, ele diz que talvez, talvez eu possa. Incapaz de lutar com a natureza, sou engolida pelo mar. Há quem tenha chegado na tangente e visto o que há depois da linha do horizonte. Ficar no limite é perigoso. Wuarrr, ouve só, o som da onda.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Reumatismo

Nasceu
            inclinado  
                            a ser alegre

inclinou-se, porém, e por doença

Triste

um homem com uma dor ser mais elegante


( das leituras de Bishop e Leminski )

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Gargalo

Como uma garrafa
chacoalhada por anos
e que já não percebe
que está sem tampa

não entende quando ouve gritar -
Supita!
Supita!

Como uma garrafa
chacoalhada por anos
e que já não percebe
que está sem tampa

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Ana

Acabara de entrar no Museu do Vaticano quando uma senhora me ofereceu companhia para a andança. Ela era iraquiana, professora de matemática no Iraque, cristã, falava da guerra naturalmente, mas sussurrava toda vez que citava o nome do seu país. Estava visitando as irmãs que conseguiram se mudar há alguns anos para a Suécia, e havia ido a Roma apenas para ver a Basílica de São Pedro. "My hope in life is to see the Big Church". Tirava fotos com um celular antiguíssimo e mal sabia o que mais poderia ver na cidade. Disse que ela poderia ir ao Coliseu e ela me perguntou se o Coliseu também era uma igreja. Com ela cometi o ultraje de furar uma fila na Europa.


domingo, 9 de dezembro de 2012

Lá vão

Dois balões
         fincados no chão
nunca almejaram voar

Dois chãos construídos no ar
                                                             lá vão

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Variações sobre poesia e foda

1
é foda ver poesia em tudo

2
é poesia ver foda em tudo

3
é tudo ver foda em poesia

4
é tudo ver poesia em foda

em foda poesia é ver tudo
em poesia foda é ver tudo

mesmo sem ver nada
é foda
e é poesia

(poema feito da primeira divagação de Itamar Rios)


sábado, 3 de novembro de 2012

Tomates e cebolas

Por trás da bancada
pergunto à alguém que
corta tomates – porque
corta tomates assim?
Responde que corta
tomates assim porque sua mãe
cortava tomates assim e
sua avó cortava tomates assim
e que seus filhos cortarão
tomates assim e continuou
cortando tomates e
depois cenouras
batatas
cebolas
Pergunto - porque chora cortando cebolas assim?
Responde que chora
cortando cebolas assim
porque sua mãe chorava assim e sua avó
chorava assim e que seus filhos
chorarão cortando cebolas assim

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Voei

voei
pelas ruas de casa na infância
e depois que cresceu, nunca mais voou?
voei

domingo, 16 de setembro de 2012

Roma


um arco romano
em pleno desalinho
com os que recusam
se aprumar
os fios dessa cabeça
olham para a história
nessa cidade existe uma sensação de 
precipício às glosas ruínicas

respiram alento

nos jogaríamos

sábado, 2 de junho de 2012

Batismo

No recontar da contagem descobri
que o bicho com tantas cabeças de
mito sete não tem tantas cabeças assim que
a posição é baixo abismo que
há mais mãos, pernas, dentes a se preocupar que
se colocar um nome ele fica familiar

sábado, 19 de maio de 2012

Na rua

na rua toca uma mistura
de Alexandre Pires
Aline Barros e
Pamonha Assada

meu paraíso é aqui
meu amor
olha, pamonha
meu paraíso é aqui
Senhor

na palma da mão
Uberlândia
quentinha quentinha
me chama pelo nome:
"Olha, pamonha
Me faz um milagre"

fala pro irmão
que está ao seu lado

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Para D. Iraci

A incompatibilidade da
palavra com a escala
ventrindustrial:

mãe é palavra pequena

sexta-feira, 27 de abril de 2012

De queixo a 90 com o mar

De queixo a 90
com o mar
ela almeja um futuro
azul, comum, atum
so blue quando
olha para cima quando
olha para baixo
retoma às realísticas
ao perceber que em parte
está afogada não
consegue se livrar das
metades secas e molhadas
com asa à barbatana
rodeada
por seu anjo exterminador


Um homem que dança em fachadas

Um homem que dança em
fachadas
pode ter um destino trágico

Na iminência de uma
queda desemboca em fusão
irreversível com a
cidade

(testas asfálticas inabdicáveis)

Mas imagina só que alegria
seria dançar em
fachadas
de gravidade contrária

Há quem a busque no mais
alcoólico dos balés
ou há quem dance
com estrelas
com sentimento em regresso?



domingo, 8 de abril de 2012

All-stars nesse puzzle fotográfico

tive um sonho em pixels acordei
quadradinha eram como se fizessem
parte de um puzzle, difícil congelar um
sonho em uma fotografia

preciso de um calço
para equilibrar mente em corpo manco
e às vezes o contrário
qual é o seu número senhorita?
(o número de vezes que meu cérebro me sabota)

lembro do meu primeiro all-star tinha
um nicho especial para guardar uma
(única) moeda

all I need is
(Oh John)
all stars nesse puzzle fotográfico quando
eu era criança parecia divertido

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Poesia que nasce bastarda

Sr. Cientista
Cabe aqui uma colocação
não há prosa que não se exprima à auto-falantes
melancolia é estado gasoso
altamente inflamável
habita
(inspira)
inabita
(suspira)
por isso tenho cuidado com cigarros
e com dragões

Do entorpecimento da amizade

[p/ Raquel Beatriz]

Algumas pessoas
Permanecem

com m smo súb to


qu  esqu c  mos

de quando
de quando
de quand?

o  pr mei o

    en   ntro

quinta-feira, 1 de março de 2012

Caravelas
carangueijos
caravaggios
caramigos
perdi a
inspiração.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Versígios

Réu
trovoe
trovoe
os vestígios rastejam em linhas curtas
só tentam
sem sucesso e sem intenção
esconder à bela luz de tropos
a sujeira do seu coração réu
trovoe
trovoe
teu poema te condena

domingo, 6 de novembro de 2011

O dia em que acordei meio Kafka

-->O dia entra pelo quarto com cor de fruta. Está quente. Manejo o cobertor a cobrir somente parte da perna direita, do joelho ao calcanhar que é onde sinto frio agora. Preciso acordar mas não é hora. Meu corpo dói, do pescoço à coluna um frio que me atravessa como uma pedra de gelo engolida com pouca saliva. Eu não quero acordar. Abro os olhos. Sinto meu pé pesado e mais um pouco consigo encontrá-lo no outro que está em parte meticulosamente coberto. Um súbito e pé e pé se estranham. Sinto um casco envolto à minha pele que pesa todo meu corpo. Sinto que está ali por uma razão. Me fazer jamais sair da cama, talvez. A materialização do desejo matinal. Não consigo movê-lo e começo a senti-lo crescendo. Da extremidade à cabeça. É a melhor sensação que já tive. A quero mais e cerro os olhos para degustá-la cega. A luz que atravessava aguda a cortina já é amena: sinal que o sol andou apressado e que esse momento anda lento. Já sinto o estômago duro e imagino quais cores se revelariam na quebra desse meu rochedo. Sou parte mina. A parte menina agora parece uma questão de escolha. Preencher o vazio que sobra do duro minério humanizado ou acostumar-me com a leveza do vazio? Decido ser pedra.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Pessimismo lirico

Fruta feia de cheiro
gasto o mundo é essa
bola madura caída à
superfície
devorada
desgostosa
por vida
insossa

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Há situações, é claro, que te deixam absolutamente sem palavras. Tudo o que você pode fazer é insinuar. As palavras também não podem fazer mais do que apenas evocar as coisas. É aí que vem a dança.

[Pina Baush, no filme Pina, de Wim Wenders]

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Mãe que me despeço de ré nesse ônibus esmorecido

Quando não conseguimos medir o amor
nos olhamos salgadas
e dizemos molhadas
que amar é dor.

domingo, 16 de outubro de 2011

Essa alma não se equilibra sobre rodas

Pesado.
O vazio
petrificou.
Foge de mim,
alma.
Nem ninho
nem laço.
Pro peregrino
que sou.

sábado, 15 de outubro de 2011

Poema bufônico

Um bufão que sorriu
ao perguntar-te se
vais bem
exalava um
incenso fétido
de desenho
colorido a
ópio
açafrão
marrom
a merda
linda.
Pensou que era palhaço
tão qual
sorria estrume
tanto qual
amava-te.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Alice nas cidades e eu aqui

Falar comigo mesma
disse Wenders em sua Alice:
isso é mais ouvir do que falar.
Estou presa
no refúgio
dolorido
da imaginação.