quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Versígios

Réu
trovoe
trovoe
os vestígios rastejam em linhas curtas
só tentam
sem sucesso e sem intenção
esconder à bela luz de tropos
a sujeira do seu coração réu
trovoe
trovoe
teu poema te condena

domingo, 6 de novembro de 2011

O dia em que acordei meio Kafka

-->O dia entra pelo quarto com cor de fruta. Está quente. Manejo o cobertor a cobrir somente parte da perna direita, do joelho ao calcanhar que é onde sinto frio agora. Preciso acordar mas não é hora. Meu corpo dói, do pescoço à coluna um frio que me atravessa como uma pedra de gelo engolida com pouca saliva. Eu não quero acordar. Abro os olhos. Sinto meu pé pesado e mais um pouco consigo encontrá-lo no outro que está em parte meticulosamente coberto. Um súbito e pé e pé se estranham. Sinto um casco envolto à minha pele que pesa todo meu corpo. Sinto que está ali por uma razão. Me fazer jamais sair da cama, talvez. A materialização do desejo matinal. Não consigo movê-lo e começo a senti-lo crescendo. Da extremidade à cabeça. É a melhor sensação que já tive. A quero mais e cerro os olhos para degustá-la cega. A luz que atravessava aguda a cortina já é amena: sinal que o sol andou apressado e que esse momento anda lento. Já sinto o estômago duro e imagino quais cores se revelariam na quebra desse meu rochedo. Sou parte mina. A parte menina agora parece uma questão de escolha. Preencher o vazio que sobra do duro minério humanizado ou acostumar-me com a leveza do vazio? Decido ser pedra.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Pessimismo lirico

Fruta feia de cheiro
gasto o mundo é essa
bola madura caída à
superfície
devorada
desgostosa
por vida
insossa

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Há situações, é claro, que te deixam absolutamente sem palavras. Tudo o que você pode fazer é insinuar. As palavras também não podem fazer mais do que apenas evocar as coisas. É aí que vem a dança.

[Pina Baush, no filme Pina, de Wim Wenders]

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Mãe que me despeço de ré nesse ônibus esmorecido

Quando não conseguimos medir o amor
nos olhamos salgadas
e dizemos molhadas
que amar é dor.

domingo, 16 de outubro de 2011

Essa alma não se equilibra sobre rodas

Pesado.
O vazio
petrificou.
Foge de mim,
alma.
Nem ninho
nem laço.
Pro peregrino
que sou.

sábado, 15 de outubro de 2011

Poema bufônico

Um bufão que sorriu
ao perguntar-te se
vais bem
exalava um
incenso fétido
de desenho
colorido a
ópio
açafrão
marrom
a merda
linda.
Pensou que era palhaço
tão qual
sorria estrume
tanto qual
amava-te.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Alice nas cidades e eu aqui

Falar comigo mesma
disse Wenders em sua Alice:
isso é mais ouvir do que falar.
Estou presa
no refúgio
dolorido
da imaginação.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Ainda nos resta imaginação
pros amores impossíveis
pros lugares invisíveis
pros tesouros escondidos
pro embrutecimento incapaz
da realização

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Fita-me

Fita-me
me enlaça de macio tato cetim
e não deixe que me encante por outros cantos
pois o canto que te fito agora
varre sem destino um sítio dentro de mim

Fita-me no eixo
que faz reta entre coração e fígado
teu e meu
porque a névoa dessa mira veio em tom de embriagado

Fita-me de surpresa
eu presente meu presente
e avermelha vivo o passado ferrugem
corroído a neblinas caprichosas de um oxigênio suspirado sem cotas

Fita-me em sua cintura
que faço extensão dos meus pés
Fita-me de cabresto
e vá a frente


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

"Ele se lembra dos anos passados
Como se olhasse por uma janela embaçada
O passado é uma coisa que ele vê mas não toca
E tudo o que ele vê é borrado e indistinto."

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Melancolia estampa felicidade

não gosto do beijo no acaso
do tato insensível
da batida desacelerada

não gosto do aqui
e o de lá
que ocupa o mesmo espaço

me gusta o frio
da mão
da barriga

o tormento
da insônia
da lágrima

da lágrima no dedo
da lágrima na manga

sábado, 16 de julho de 2011

Nos vespertinos
nos vemos com cara de sono
e dizemos
Bom dia
que já é noite.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Um eucalipto caído

Esguias ao monte
era um coletivo de magras
do tipo verdes com folhagens
de topo
ou de céu.
Por certa ventania
veio encontrar
rasteiro

a infância.

[]

sábado, 18 de junho de 2011

Do pôr do sol e do cerrado

Vejo o pasto
abrindo espaço
pro laranja passar.
Passou.

domingo, 12 de junho de 2011

Chove em Brasília

no momento de tornar-se mais acerbo
tornar-se-á soberano
o vazio
imperador.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Sobre romantismo e alergias

eu te daria uma flor,
mas só tenho cactos.
eu cheiraria o seu perfume
esconderia-me em sua manta
comeria o seu bobó
banharia o seu gato
mas eu só tenho cactos...
 "Amar: ter amor, afeição, devoção, estimar. Pilar, Pilar, Pilar, Pilar, Pilar, Pilar..."

[do belo José & Pilar]

terça-feira, 24 de maio de 2011

Sobre a pele, a cor da pele e a cor de pele

a lingerie
que encobre a pele
que é cor de pele:

apelo
[a]pele
o desejo por cor de pele.

sábado, 21 de maio de 2011

Sobre Cinema

quando em filmes épicos ou
quando em filmes de ficção
me transporto rumo à realidade
que nao me cabe
que não me entra
não  ressarcia.
quando sento em frente à caixa escura
sou anacrónica.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Desse ônibus;
Dessa viagem;
Dessa janela;
Desse [en]quadrado 
envidraçado
eterniza-se 
a paisagem
em movimento.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Divagação sobre o tempo

corri atrás do tempo e
perdi tempo
querendo alcançar o 
Tempo [?]
então que tempo tenho eu
senão o tempo do devaneio
do próprio
Tempo ?
Corre que o tempo não espera a gente.
O tempo não é da gente.
O tempo engole o tempo.
Digerido por nós.
Sem tempo.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

amador:
cabe aqui dizer que a consoante "d" foi posta deliberadamente.

domingo, 27 de março de 2011

ligo a tv pra campainha tocar
canal 20
canal 21
canal 22
canal 23
dançam no jump
controle [se]
anfitrião
Sou uma bandeirante
urbana
de facão na mão
cortando o caminho
xadrez
vermelho
preto.
Pegada é sangue.

quarta-feira, 23 de março de 2011

No cemitério
os moradores 
do semi térreo

domingo, 20 de março de 2011

ser ímpar
ter um par
Insisto caminhar em
linha mas esquinas
                  são
                  muito

                  sensuais
eu valorizo a vida
eu valorizo o corpo
eu valorizo os estudos

eu valorizo a saúde
eu valorizo a cultura
eu valorizo...
acabou o dinheiro.
O prazer de falar um 'uai' o transformou em vírgula, pro prazer da vírgula, que nem pronúncia havia.

quinta-feira, 17 de março de 2011

solidão
de instante
aumentativo

sábado, 5 de março de 2011

Tudo ao meu redor possui um discurso que é único, mas que, insistentemente, se misturam nos tropeços da minha imaginação.

Em cada esquina cai um pouco a sua vida

"Querida, pra muita gente essa música do Cartola pode parecer melancólica demais, mas pra mim, quando ele diz 'em cada esquina cai um pouco a sua vida' ele quer falar que as infelicidades são inevitáveis e que quando percebemos que elas estão para um equilibrio, daí desfrutamos como devemos da vida. Um abraço."



Texto que escrevi à uma amiga. Postando aqui para não se perder.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

eu que achava o obvio
corre cotia
corre cotio
de noite e de dia
corre comigo
não corre cotia
espere espere espere, olha o tempo lá, sem tempo de nos alcançar!